Muitos pesquisadores sociais acreditam que raiz da maioria dos problemas atuais está na crença de que somos seres individuais e separados de tudo a nossa volta. Essa crença origina doenças psicoemocionais como o egoísmo, medo, desconfiança, ódio. Desequilíbrios emocionais que nos levam a conflitos, violência e a competitividade desenfreada e desleal, onde as pessoas se tornam objetos e engrenagem de um mundo cada vez mais desordenado.

Essa preocupação como uma sociedade em mudança, por exemplo, levou a formação da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI, ligada a UNESCO e presidida por Jacques Delors (1998), a produzir um relatório com ações educativas condizentes com as questões do nosso século. São competências organizadas em quatro pilares:

  1. Aprender a Conhecer – a importância do espírito científico para questionar principalmente nossas próprias convicções, visando construir pontes entre as diferentes disciplinas, o Conhecimento e o Ser, despertando assim, a vontade de aprender, de querer saber mais e melhor.
  2. Aprender a Fazer – a criatividade é inata ao ser humano, é uma necessidade durante toda a vida. O aprender a fazer refere-se à formação técnico-profissional do educando, é o aplicar, na prática os conhecimentos teóricos aprendidos.
  3. Aprender a Conviver – no mundo globalizado o desenvolvimento da tolerância e aceitação do outro é fundamental. Aprender a conviver com as diferenças culturais, sociais e pessoais é uma atitude que se aprende durante toda a vida.
  4. Aprender a Ser – é um aprendizado que proporciona um questionamento mais profundo sobre quem somos, sobre as crenças, condicionamentos e como harmonizar a vida social e individual. Considera-se que a Educação também deve ter como finalidade o desenvolvimento total do indivíduo: do “espírito, corpo, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade”. Ou seja, uma educação que se interessa pelo mundo exterior e o mundo interior, visando à evolução de cada um em termos humanos.

Esses quatro pilares tornaram-se as bases para o planejamento pedagógico de formação do conhecimento e do ser humano na escola pós-moderna, onde a formação e o comportamento dos alunos são desafios a serem enfrentados.

E o que é o comportamento humano? Por que uns agem de uma forma e outros de maneira diferentes? Essas perguntas permeiam o mundo da psicologia e da filosofia há muito tempo. De maneira superficial, podemos dizer que o comportamento humano é resultado de uma mistura de códigos, normas, cultura e temperamento individual de uma pessoa, em conjunto com seus afetos – emoções, sentimentos, estado de humor. Essa classificação nos leva as questões de que, educar o comportamento é educar as “pulsões instintivas e emocionais” de uma pessoa.

Comportar-se significa então, a maneira como alguém se conduzir, age e interage com os outros e com o mundo à sua volta, de forma inconsciente, mas que ao ser entendida, torna-se consciente e assim, integrada. Esta é a base do Ser Integral – a pessoa que tem uma consciência sistêmica da vida porque a entende como um grande entrelaçar de vivencia em dimensões diversas, tanto internas como externas. Com isso, a vida para este ser é uma constantemente busca por se autoconhecer e se entender. O ser integral sabe que a vida é impermanente e requer mudanças diversas o tempo todo, e isso necessita de adaptação e resiliência.

Aprendemos os modelos de comportamentos de acordo com o lugar, tempo e crenças que temos. Viver em comunidade é obedecer a determinados códigos que tanto organiza as relações como também, “amarram e castram” nossa individualidade. O processo de adaptação ao coletivo pode ser cruel dependendo da cultura vigente.

E foi o estudo dessa problemática que deu origem a uma abordagem educacional intitulada Educação Transcomportamental – ETC (Isa Magalhães, 2012), que tem uma metodologia própria para o entendimento, aprendizagem e ensino da complexidade comportamental humana, seja na escola, na família, na sociedade. Transcomportamento que vem de transforma, transgredir, transmitir, transparente, transpor. Trans de ir além do comportamento massificado e encontrar a nossa unidade dentro da coletividade, sem, contudo, perder essa consciência coletiva. O transcomportamento tem como objetivo formar o Ser Integral através da conexão das dimensões do pensa-sentir-agir-interagir – bases do comportamento humano.

É um processo educacional que acontece através do autoconhecimento pessoal, do ensino da regulação e gestão emocional com uso dos valores humanos para direcionar os padrões comportamentais mais adequados para a pessoa. Um aprendizado que acontece ao compreendemos quem somos verdadeiramente, nossa história, nosso modelo mental, crenças, valores, cultura, forma de sentir, pensar e agir.

Embora não tenhamos controle sobre a vida como um todo, podemos aprender a nos conhecer e entender, para assim, fazermos escolhas conscientes. Educar nossos pensamentos, sentimentos e emoções para interagir com a vida de forma mais equilibrada é a base da Educação Transcomportamental ao trabalhar o comportamento dos educandos com ações que vão além das práticas curriculares normais.

A Educação Transcomportamental é a base teórica e prática do programa SILES – Sistema Ludis de Educação Socioemocional, que trabalhem as várias dimensões relacionais dos alunos (Eu, Tu, Nós) por meio de uma metodologia educacional organizada em torno de três eixos articuladores (Identificação dos Temperamentos, Matrizes de Reconhecimento e Método ICRE) para a integração das funções Pensar-Sentir-Agir-Interagir que formam o Ser Integral.

(Do livro Educação Transcomportamental – Gestão das Emoções para Comportamentos Inteligentes, Isa Magalhães – Ludis Editora, 2018)