Descobrindo a felicidade! Propósito de vida e educação emocional

Todos nós, seres humanos, buscamos a felicidade. Mas a grande questão é saber o que realmente significa ser feliz. Somos tão diferentes uns dos outros e tão iguais! As diferenças estão nos valores e crenças que nos faz olhar e entender a vida por ângulos diferentes. Mas a igualdade nos irmana, afinal, temos um corpo biológico e um campo emocional que nos leva a buscar coisas parecidas para sentir bem-estar: dormir, comer, ter saúde, sexo, lazer.

No entanto, nunca podemos confundir felicidade com a emoção da alegria. Alegria é uma sensação biológica, acaba rápido. Mas o sentimento de felicidade é duradouro e existe mesmo quando estamos tristes. Ter essa consciência é importante porque para a maioria das pessoas em nossa sociedade, felicidade é conquistar bens materiais. Claro que isso ajuda, no entanto, também gera infelicidade quando ficamos presos ao medo de perder os bens ou pessoas conquistadas! A ansiedade que isso gera, marca registrada dos nossos tempos, nos adoece. E qualquer felicidade vai embora!

E que fazer para ter essa tão sonhada felicidade? Vamos primeiro dar uma rápida volta em algumas ideias filosóficas e psicológicas sobre a felicidade, antes de responder essa pergunta.

Uma coisa é certa, essa questão é muito antiga! Ela é fonte de preocupação dos filósofos há séculos. Por exemplo, para Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C) a felicidade era algo muito precioso, um bem nobre que todos desejam. Mas esse bem não é físico, está na contemplação e prática de virtudes como sabedoria, moderação, justiça e coragem. Foi ele que desenvolveu o conceito da “eudaimonia”, onde a felicidade é consequência do nosso estilo de vida, e para isso, precisamos exercitar constantemente o que temos de melhor dentro de nós. Somente a prudência de caráter desenvolve um bom “daimon” (boa sorte) que nos levará a felicidade plena.

Mas foi o filosofo Epicuro (341 a.C. a 270 a.C.) quem mais se preocupou com esse tema, e até fundou a “Escola da Felicidade” onde divulgou as ideias da felicidade hedonista, cujo princípio estava no equilíbrio e na temperança, um conceito que se traduz na frase: “Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco”. Epicuro acreditava que não devíamos trabalhar só para adquirir bens materiais, e sim, somente ao amar o que fazemos obtemos a felicidade. E para eliminar a dor emocional o caminho é não nos preocuparmos com as coisas que não temos poder de mudar, ou que ultrapassam o poder da nossa vontade.

A filosofia oriental também fala da felicidade, que para Confúcio (551 a.C a 479 a.C.) seria a contribuição que damos ao outro para que ele seja feliz. Dessa forma, Confúcio nos ensina que somente através do desprendimento e superação do nosso egoísmo e orgulho podemos ser felizes, algo que o budismo complementa com as “Quatro Nobres Verdades”.

Essas Nobre Verdades explicam a origem do sofrimento humano cuja fonte é o nascimento, doença, velhice e morte. Assim, ninguém escapa do sofrimento. Mas ao trabalhar o desapego através do conceito de impermanência (nada dura para sempre, nem a dor nem o prazer), podemos encontrar formas de melhorar ou eliminar o sofrimento e chegarmos a felicidade.

Para isso, o budismo nos ensina a prática da meditação como caminho de contemplação da mente e das emoções que nos leva a compreensão dos nossos problemas e ao equilíbrio das emoções e projeções mentais.

Em tempos mais modernos, muitos filósofos também falaram sobre a felicidade, e de forma bem distinta. Por exemplo, Bertrand Russell (1872/1970) também fala da felicidade como eliminação do nosso egocentrismo e da busca de vários tipos de interesses e formas de relações que nos completam como seres. No entanto, para Nietzsche (1844/1900) isso é viver pacificamente e sem qualquer preocupação, e somente os medíocres que não valorizam a vida, tem este desejo. Nietzsche não acreditava nas circunstâncias favoráveis ou na boa sorte como felicidade, condições efêmeras que podem mudar a qualquer momento. Para ele, o “estar bem”, sem preocupações ou sobressaltos, significava uma espécie de “estado ideal de preguiça”, e isso não seria a felicidade. Ser feliz para Nietzsche é ter força vital e espírito de luta contra todos os obstáculos que possam restringir a liberdade e a autoafirmação. Essa força gera um estado criativo que nos leva a superação das dificuldades e modela diferentes formas de vivermos.

Possivelmente, o pensamento de Nietzsche tenha influenciado Sigmund Freud (1856-1939), que afirmava ser todas as pessoas movidas pela busca da felicidade, o “princípio do prazer” que nos faz agir em busca de situações e coisas que nos proporcione deleite. Entretanto, como é impossível satisfazer todos os nossos desejos, estamos fadados ao fracasso na vida real, que para Freud é o “princípio da realidade”. Por tanto, para a Psicanálise nunca alcançaremos a felicidade plena, ela sempre será parcial. Essa seria a causa do sentimento de insatisfação eterna do ser humano.

Mas é em outro psiquiatra, Viktor Frankl (1905-1997), um judeu que foi preso nos campos de concentração nazista por longos três anos durante a 2ª Guerra Mundial, que focaremos a resposta para o caminho de busca da felicidade.

Quando Viktor Frankl foi libertado dos campos de concentração escreveu sua experiência na guerra e falou especialmente, sobre a diferença entre as pessoas que sobreviveram e as que acabaram morrendo (não por execução, mas por outros motivos). Essa diferença se baseava unicamente em ter ou não ter um propósito, um significado na vida. Ou seja, as pessoas que tinham um objetivo e que não foram, obviamente, para a câmara de gás, foram as que conseguiram sobreviver aos horrores desses campos.

Diferentemente dos pensadores existencialistas da sua época, Frankl não era pessimista ou cético. Ele assumiu uma visão mais otimista e esperançosa sobre a capacidade humana de superar adversidades e imposições da vida, porque acreditava no conceito de sentido, a partir do qual o ser humano pode se orientar durante sua existência.

O conceito de sentido significa termos um propósito na vida, seja alguém por quem lutar, seja um trabalho importante a terminar, ou qualquer outra coisa que nos dê sentido a existência. Esse sentido nos torna mais resilientes, com capacidade de suportar as adversidades sem perder a esperança.

Frankl dizia que “tudo pode ser tomado do ser humano, menos uma coisa, a liberdade de escolher qual ação adotar em uma circunstância”. Poder escolher o próprio caminho interior é o princípio da felicidade, que, mesmo assim, não poderá ser buscada diretamente, deve ser consequência de algo. Ou seja, ter felicidade consiste em descobrir um propósito na vida que nos satisfaça.

No entanto, a maioria das pessoas não tem a menor ideia do que fazer para suas vidas terem um significado. Para essas pessoas, Viktor Frankl diria: a felicidade é uma consequência de uma ação que deve ser maior do que nós mesmos! Para isso, devemos vencer o egoísmo e olhar verdadeiramente para o outro, como também afirmou Confúcio, milênios atrás.

Podemos dizer então, que o pensamento de Frankl é alimentado principalmente pelas ideias de servir ao outro e de termos um propósito na vida para encontrarmos essa tão famosa felicidade. Essas ideias estão sendo estudadas atualmente através de uma novíssima abordagem chamada Psicologia Positiva.

Portanto, a resposta para sermos felizes está no encontrar de um propósito de servir nossa coletividade de alguma maneira. E as pesquisas da Neurociência estão confirmando essas ideias, ao mostrar que as pessoas gratas e com causas sociais de doação ao próximo, tem muito mais saúde e bem-estar do que as que se fecham em seu mundo pessoal. Feliz busca de um sentido para sua vida!